O Inverno Está Indo Embora | Um Desabafo sobre a Vida Adulta

o inverno está indo embora

Está chovendo, o vento começou a soprar mais forte e o inverno está indo embora. Setembro só é Setembro quando a chuva cai para limpar a poeira de Agosto. As flores só florescem depois do dia 22, quando a água vinda do céu limpa toda a sujeira.

Eu estou ouvindo uma playlist de outono na primavera, mas a chuva, às vezes, me lembra do outono, de bolinho de chuva e de como era estar em casa nos anos 2000. E a música que eu estou ouvindo agora me lembra chuva de qualquer forma, Roslyn, Crepúsculo, ensino médio, adolescência, é tudo a mesma coisa para mim.

Eu vivo lembrando de alguma coisa do passado, mas não o passado recente, é um passado mais passado que qualquer outro passado, é um passado que dói, às vezes, porque ele é um dos passados mais antigos da minha vida e ele não volta mais e, às vezes, eu não sei o que fazer no presente.

Mas é Setembro e logo Novembro estará aí, quando começarão a enfeitar a cidade para o Natal mais uma vez. Luzes, neve falsa, papai Noel, lembra daquele pisca pisca que tocava musiquinha nos anos 2000? Eu era apaixonada por eles, assim como era apaixonada por cartões musicais e tudo que envolvia música, brilho e luz.

Mas esse passado é tão passado e o futuro é tão assustador que, às vezes, eu acordo no meio da noite pensando na minha infância e em como eu me sentia feliz. A felicidade da vida adulta é diferente, é mais dura, mais condicional do que qualquer outra coisa no mundo. Na infância ela não era assim, ela era mais resplandecente, mais amarela, mais pura, mais viva.

Leia também: O Inevitável Desencantamento com o Mundo.

o inverno está indo embora

Quando eu me lembro da minha infância, eu lembro de pores do sol na rua onde eu morava, lembro de como os carros passavam apressados às cinco da tarde e de como a enxurrada se tornava uma forma de ser feliz no meio da estrada.

Eu tive a minha primeira crise de ansiedade quando eu tinha 8 anos, mas aquilo não parecia fatal ou imediato, era algo que vinha e ia embora, porque os adultos ao meu redor cuidariam de mim de qualquer forma, tudo estava bem, tudo ficava bem mesmo quando não estava. O lar de infância sempre traz conforto mesmo quando nós sentimos as garras da ansiedade nos nossos ombros pelas primeiras vezes.

Mas aí a vida adulta chega e com ela chega o aperto do peito, a angustia de saber que não existe um propósito em nada e que do mesmo jeito que nós viemos para o mundo, nós voltaremos para o nada sem ao menos saber porquê estivemos aqui. E dói, dói o peito, dói as costas, o maxilar, a cabeça. Dói o coração cheio de lembranças da infância, mas não existe remédio para esse tipo de dor, não existe remédio para quando você sabe que nada faz sentido.

E as pessoas continuam nascendo e morrendo enquanto o mundo continua girando e as estações continuam passando. E nós ficamos cada vez mais velhos e mais desacreditados, cada vez mais ansiosos e cansados e não existe muito o que fazer além do que nós já fazemos.

Sem pores do sol na rua que ficava agitada às cinco, sem o cuidado que recebíamos porque agora somos nós que cuidamos, sem o amarelo que deixava tudo mais resplandecente naquelas tardes douradas dos anos 2000. Vivemos apenas com as lembranças de um tempo que não volta mais, de uma vida vivida há muito tempo atrás e de uma época onde não existia anseio por respostas.

Eram tempos sem tensão, tempos com brincadeiras na calçada e chuvas de verão, tempos onde a mente vivia em paz, porque tudo o que nos movia vinha de dentro do nosso coração.

Foto de Natalia Olivera
Foto de Yusuf sinan

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.

Previous Post

Não Existe Outra Saída | Uma Reflexão sobre o Suicídio

Next Post
big little lies

Big Little Lies | As 10 Melhores Frases da Série

Related Posts