Beleza e Terror: Como um Poema de Rilke Escrito Há Mais de 100 Anos Me Salva das Crises de Ansiedade

rainer maria rilke

Há momentos em que o mundo moderno parece barulhento e rápido demais para o nosso peito acomodar. Quando a mente acelera e a ansiedade assume as rédeas, o corpo entra em um estado de alerta paralisante. Nesses cenários de tempestade mental, a lógica racional muitas vezes falha em nos acalmar, mas a arte, especificamente a poesia, consegue tocar lugares que a ciência ainda tenta traduzir. Eu sempre procuro âncoras para navegar os dias difíceis, e poucas obras são tão reconfortantes quanto o poema I, 59 de Rainer Maria Rilke, parte de seu celebrado Livro de Horas (Das Stunden-Buch), que eu conheci assistindo ao filme Jojo Rabbit.

Se você já enfrentou o peso sufocante de uma crise de pânico ou de ansiedade generalizada, é muito provável que as linhas mais famosas desse poema já tenham servido de remédio para o seu coração. Os versos “Deixe que tudo aconteça com você: beleza e terror. Continue apenas caminhando: nenhum sentimento é definitivo” funcionam como uma verdadeira prescrição poética de acolhimento e impermanência. Vamos destrinchar o poema de Rilke para entender como ele nos devolve o chão sob os pés.

>> Você precisa ver: Frases Reflexivas de Memórias Póstumas de Brás Cubas: A Ironia da Vida Pelo Defunto Autor.

O Limite do Anseio: O que Diz o Poema I 59?

O poema assume uma perspectiva profundamente existencial. Rilke imagina Deus conversando com cada alma humana imediatamente antes de criá-la e arremessá-la ao mundo terrenal. Nas estrofes, o Criador dá instruções claras sobre como o ser humano deve portar-se na Terra: avançar até o limite dos seus anseios, expressar o mundo como um espelho e deixar-se queimar pelas experiências.

Diz o trecho crucial:

Deixe que tudo aconteça com você: beleza e terror. Continue apenas caminhando: nenhum sentimento é definitivo. Não se deixe separar de mim. Próxima está a terra que chamam de vida. Você a reconhecerá pela sua gravidade.

Rilke nos lembra de que a vida se manifesta por meio de sua “gravidade”, seu peso, sua densidade. Viver não é flutuar em um estado eterno de calmaria intocável; viver é ter a coragem de experimentar a totalidade das forças da existência.

O Espaço Para a Beleza e Para o Terror

Quando a ansiedade bate à porta, nossa reação instintiva é lutar. Tentamos bloquear os sintomas físicos, silenciar os pensamentos intrusivos e expulsar o medo a qualquer custo. O problema é que a resistência aumenta a pressão interna. Quanto mais brigamos com o medo, mais o cérebro entende que estamos em perigo real, liberando ainda mais adrenalina e cortisol.

A genialidade terapêutica de Rilke está na aceitação radical. Quando ele escreve “Deixe que tudo aconteça com você: beleza e terror”, ele nos dá permissão para baixar as armas. O terror, a palpitação, a incerteza do amanhã, o vazio existencial, faz parte do pacote humano tanto quanto a beleza.

Ao mudarmos nossa postura de “preciso eliminar esse sentimento agora” para “estou sentindo o terror agora, e tudo bem, ele pode ocupar esse espaço por um momento”, quebramos o ciclo do pânico. Aceitar o terror não significa conformismo ou desistência, mas reconhecer que a tempestade faz parte da paisagem da vida.

“Continue Apenas Caminhando”: A Ação Apesar do Medo

Um caminho de terra tranquilo atravessando uma floresta densa e enevoada com árvores altas durante o outono, transmitindo a sensação de continuar caminhando através da névoa.

O segundo comando do poema é um lembrete físico de movimento: “Continue apenas caminhando”. Na psicologia comportamental e nas terapias modernas de terceira onda, isso se assemelha à ação com compromisso. A ansiedade tenta nos paralisar, congelar nossas decisões e nos enclausurar na cama ou no isolamento de nossos pensamentos. Rilke pede para mantermos o passo. Mesmo que lento, mesmo que as pernas tremam, o ato de continuar movendo-se diz ao nosso sistema nervoso que nós ainda habitamos o controle do corpo, e não o medo.

E por que devemos continuar caminhando? Porque “nenhum sentimento é definitivo”.

Essa é a frase definitiva contra o desespero. A mente ansiosa é uma péssima contadora de histórias: ela nos sussurra que o aperto no peito vai durar para sempre e que aquela angústia nunca vai passar. Rilke estapeia essa ilusão com a realidade implacável da impermanência.

Os sentimentos operam como o clima na atmosfera. Há dias de sol radiante e há madrugadas de tempestades com raios assustadores. Mas, por mais violenta que seja a chuva, ela eventualmente perde a força e o céu clareia. A crise de ansiedade é uma onda violenta, mas ainda assim, apenas uma onda. Ela tem um pico de intensidade e, inevitavelmente, quebra e recua. Lembrar que a dor do agora tem data de validade é o passaporte para atravessá-la com integridade.

Conclusão: Por que Ler Rilke em Tempos de Crise?

Precisamos ler e reler Rilke porque a poesia dele remove o isolamento da dor. Ao perceber que um poeta em 1905 sentia o exato mesmo terror existencial e a mesma necessidade de se ancorar na impermanência que nós sentimos diante das nossas telas hoje, percebemos que não estamos sozinhos, quebrados ou errados. A ansiedade é apenas a vida se fazendo notar em sua gravidade máxima.

Permita-se sentir a beleza dos dias bons. E, quando o terror vier, respire fundo, dê o próximo passo e repita baixinho para si mesmo: nenhum sentimento é definitivo.

Confira o poema completo:

Deus fala a cada um de nós antes de nos criar,
depois, caminha conosco silenciosamente para fora da noite.
Estas são as palavras que vagamente ouvimos:

Você, enviado além do seu próprio alcance,
vá até os limites do seu anseio.
Incorpore-me.

Acenda-me como uma chama
e projete grandes sombras nas quais eu possa me mover.

Deixe que tudo aconteça com você:
beleza e terror.
Continue apenas caminhando:
nenhum sentimento é definitivo.
Não se afaste de mim.

Perto dali fica o país que eles chamam de vida.
Você o reconhecerá
pela sua seriedade.

Dê-me a sua mão.

Foto de Nataliia Zhytnytska

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.

Previous Post
Perfect Days

Trilha Sonora de Perfect Days e o Estado Mental de Hirayama: A Voz do Silêncio

Related Posts
1984 George Orwell

1984

Mil Novecentos e Oitenta e Quatro, muitas vezes publicado como 1984, é um romance distópico da autoria do…
Ler Agora