Às vezes, eu me perco em 1996, nas músicas, nos filmes, na moda, tudo parecia tão colorido, as pessoas não tinham medo de se mostrar para o mundo e as cores faziam parte da ousadia. E tinham as câmeras analógicas, os encontros na praça da cidade, as brincadeiras na rua no final do dia, tudo era tão fácil, até os banhos de chuva aconteciam sem o medo de pegar um resfriado ou de ser atingido por um raio.
Mas o tempo passou e nós crescemos junto com uma tecnologia que mais nos atrapalha do que nos ajuda. Tudo é pago, tudo precisa de alcance, tudo é propaganda, tudo é clean. As pessoas não são legais umas com as outras, as empresas tratam seus funcionários como escravos e o mundo continua girando, porque não existe escolha a não ser seguir em frente.
O medo, antes de escuro e de bicho papão, se tornou nosso companheiro mais fiel, mas não é mais o escuro que nos assusta ou o bicho papão, são as notícias, as tragédias que ficamos sabendo vinte e quatro horas por dia. Não existe sossego nem no rolar do nosso próprio feed, que teima em trazer vídeos de pessoas morrendo ou adoecendo e é como se o nosso próprio fim estivesse logo ali, por traz de todos aqueles sintomas tão parecidos.
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E é cansativo viver assim, é cansativo se comparar, é cansativo viver com medo, é cansativo não ter para onde correr.
Esses dias eu sonhei que os planetas estavam caindo e eu nunca senti tanto medo durante um sonho, porque não tinha o que fazer, não tinha onde esconder, estávamos expostos e sem esperança. Mas, quando parei para pensar nesse sonho, percebi que nós vivemos assim todos os dias e que não há esperança para a maioria das coisas ruins que acontecem por aqui e nós temos que fingir costume, porque enlouquecer não faz parte do pacote.
Talvez eu nunca me acostume com a Terra ou com o Universo em si e isso me mata por dentro, porque não existem respostas e todos nós estamos destinados a morrer sem entender o porquê estivemos aqui. Por isso, eu escrevo tanto sobre esse tipo de coisa, porque eu preciso encontrar uma maneira de viver sem racionalizar tanto as coisas que acontecem por aqui…
Foto de Markus Spiske
Foto de cottonbro studio