Não tenho amigos
Crônicas

O ano em que eu descobri que não tenho amigos

De repente, pandemia.

E todas as nossas certezas se foram.

Do dia para a noite tivemos que lidar com o medo da morte, com o medo da perda e com o medo do fim de uma vida que demoramos tanto para construir. Noites bem dormidas deram lugar a noites em claro. Encontros casuais deram lugar a dias e mais dias sem companhia. A normalidade de um dia comum deu lugar a novas regras para serem seguidas, enquanto o coração que até então batia em paz, se tornou um território perigoso, cheio de angustia e desespero, frutos de um ano quase apocalíptico.

Na televisão, consolo e apoio em forma de comerciais no estilo comercial de margarina. Pessoas sorrindo para a tela de um celular porque seus melhores amigos estavam ali dentro. Ambos se apoiando, apesar da distância, enquanto o mundo inteiro desmoronava. Melhores amigos até o fim. Que comercial lindo!

Eu nunca fui a garota super popular e consequentemente nunca tive muitos amigos. Sempre lidei muito bem com os meus problemas sem muitos ouvidos para me ouvir, aprendi muito cedo que eu teria que ser o meu próprio ouvido. Mas como a maioria das pessoas que vivem no planeta terra, eu pensava que tinha alguns poucos e bons amigos, que poderiam ser alento para quando os dias difíceis chegassem.

(Que ilusão. Na vida adulta nós descobrimos que todos nós somos sozinhos. Tenho certeza que nesses nove meses de pandemia ninguém perguntou como você estava, não é mesmo?! Você realmente tem amigos?)

Os dias viraram semanas, que viraram meses, que viraram a maior descoberta de um ano tão cheio de surpresas: eu não tenho amigos. Apenas conhecidos. Como não sou uma pessoa hipócrita, me afetei momentaneamente com essa informação, porque a verdade é que eu poderia ter sido mais amiga de várias pessoas também, mas como sou vacinada contra pessoas que se dizem amigas e não são, decidi me afastar quando senti que essas mesmas pessoas se afastaram. (E está tudo bem!)

Mas o que dizer de uma pessoa que sempre foi amiga de todo mundo? Que sempre esteve ao lado da maior quantidade de pessoas possível? Que sempre foi ouvido atento para a metade da cidade e que sempre foi apoio em tempos de tempestade? Por que os “amigos” abandonam pessoas assim? Eu, realmente, entendo a minha falta de amigos, eu sou muito introvertida e sempre tive poucos amigos. Mas e quanto aos extrovertidos? Por que eles perderam os tantos amigos que tinham? É difícil dizer. Só podemos supor, supor que a verdade é que esses amigos nunca foram tão amigos assim.

Que em 2021 você compreenda que ninguém estará ao seu lado como a sua família está. Que ninguém te amará mais do que os seus pais. E que amizade só se prova amizade quando testada pelas circunstâncias da vida. Que em 2021 você faça novas amizades, mas que você entenda que esses amigos poderão passar, como os outros tantos que passaram não só em 2020, mas durante todos esses anos em que você viveu. Não guarde rancor, mas seja esperto. Não fique triste com as pessoas que você achava que eram seus amigos, mas não projete mais nessas amizades um amor que não existe. Conheça novas pessoas, mas tendo sempre em mente que tudo passa e que no fim você só poderá contar com você mesmo.

(…)

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2 Comments

  • Reply
    Sara
    21 de dezembro de 2020 at 16:11

    Que texto forte. Obrigada pela mensagem!
    Passei por um processo parecido em 2019 de me desvincular de amizades que eu achei que fossem próximas a mim, foi difícil, mas hoje eu sinto como uma angustia que eu não preciso mais carregar comigo. Às vezes, quando nos encontramos em nós mesmo, acabamos nos afastando dos outros. E tá tudo bem, é muito bom reconhecer o seu próprio espaço no mundo, sem se julgar nem julgar ninguém.

    Com amor,
    Sara

    • Reply
      Renata Lima
      21 de dezembro de 2020 at 18:10

      Sara, realmente, é um processo muito difícil, mas é como você disse, quando a gente se encontra dentro da gente mesmo, muitas vezes acabamos nos afastando das pessoas, também. Talvez essas situações sejam necessárias e façam parte da vida. Tudo passa, inclusive pessoas, infelizmente.

      Com amor,
      Renata ♥

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