Succession | O Retrato da Desigualdade Social

Succession

Fazia um tempo que eu estava pensando em dar uma chance para a série Succession, mas ainda com um pé atrás, afinal de contas, será que uma série que traz a briga de uma família poderosa pela vaga de CEO de uma grande empresa era tão interessante assim? Pois bem, posterguei mais um pouco, mas logo me rendi aos comentários positivos e comecei a assistir a saga da família Roy pelo poder.

A família Roy é dona de um conglomerado internacional de mídia muito poderoso e é claro que o chefe desse conglomerado é o pai da família, Logan Roy. Ele tem quatro filhos, Connor Roy, Kendall Roy, Roman Roy e Shiv Roy, quatro irmãos muito diferentes uns dos outros, mas todos com algo em comum, o dinheiro absurdo de seu pai.

O Connor é aparentemente o mais desinteressado, ele vive em uma fazenda no Novo México, é meio lunático, devo acrescentar, e aparece quando a família precisa tomar alguma decisão importante. O kendall é o filho mais interessado pelo cargo do pai e embora seja um pouco covarde para a posição que ele ocupa, ele quer que aquilo continue dando certo, ele quer o bem da empresa. O Roman é simplesmente insuportável e não liga para nada além dele mesmo e de suas necessidades. Por mais que pareça que ele quer trabalhar na empresa, ele não quer! Ele gosta da ideia de ser o mais poderoso, mas não está nem aí para o que a empresa precisa ou não. A Shiv tem sua própria carreira como consultora política, tem um noivo meio pateta e inicialmente não tem grandes ambições com relação a empresa do pai, chegando a trabalhar até para um dos inimigos de Logan.

A série acompanha cada um dos filhos e seus respectivos ideais e vícios. Apesar de ser uma família unida pela empresa, os Roys são uma família completamente disfuncional e por mais que eles tenham o mesmo sangue, nenhum deles vacila um segundo se precisar atacar um membro da própria família.

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É tudo muito interessante, tudo muito bem gravado, com uma fotografia deslumbrante, mas o detalhe da série que mais me deixa de queixo caído é a forma como as pessoas muito ricas e poderosas são retratadas. Juro! Nunca tinha assistido nada parecido nesse sentido de expor de forma majestosa a vida dos milionários e suas artimanhas para continuar no poder.

Quando a gente começa a assistir a série e a acompanhar a família Roy, a gente acha tudo muito engraçado, porque a série tem essa proposta, ser engraçada mesmo quando tudo está desmoronando, séries de humor ácido são assim mesmo, se você não costuma assistir séries de humor ácido, talvez você ache a série um pouco estranha no começo, mas assim que você pegar o ritmo e entender que existe uma crítica por traz de todo aquele humor esquisito, você vai amar, porque a série é justamente isso, uma crítica aos poderosos disfarçada de humor ácido.

Então, você vai acompanhar uma família desunida, cheia de traumas mal resolvidos, vícios em drogas pesadíssimas e picuinhas infantis. Mas por traz desses detalhes que não parecem tão importantes assim, existe o reflexo da sociedade famosa e endinheirada, pessoas e mais pessoas que passam pela sua timeline todos os dias, pessoas que você segue, pessoas que você até para pra acompanhar o dia a dia, e que não faz ideia do quanto é podre por dentro.

Vivemos divididos entre os que tem muito dinheiro e fama e os que não tem, e, por mais incrível que pareça, se tornou normal entre as pessoas que não tem grana idolatrar quem tem sem ao menos saber das coisas terríveis que essas pessoas fazem para ter tanto dinheiro assim. Com a chegada das redes sociais em meados dos anos 90, isso se tornou mais evidente ainda, mas as pessoas parecem não notar que elas são meros expectadores da vida de pessoas que são muito ricas, mas que não valem um real.

É sobre isso que Succession é, sobre ter dinheiro a ponto de jogar um jantar todo fora, sem remorso nenhum, porque ele ficou exposto a um mal cheiro, sobre ter dinheiro a ponto de conseguir manipular a mídia contra uma pessoa que não fez nada, sobre ter dinheiro a ponto de livrar a cara do filho de quarenta anos que só sabe fazer merda, sobre ter dinheiro a ponto de se sentir um rei.

Todos os detalhes que fazem a série ser uma trama corporativa ficam em segundo plano quando a gente percebe que a série não é sobre quem vai se tornar o próximo CEO, mas sobre a vida abastada que cada um vive, sobre o quanto a realidade deles é completamente diferente da nossa realidade.

Quanto mais dinheiro tem um homem, mais ele acha que pode brincar de deus.

Assista a série Succession prestando atenção nos detalhes mais simples e você se tornará imune a todas as pessoas poderosas que existem por aí. Acompanhar seu dia a dia? Não, muito obrigada. Assistir o quanto a sua festa foi legal? Não, tenho mais o que fazer. Curtir vídeos de compras que você fez em Paris? Me poupe. Ver como sua nova casa ficou bonita? Vai se f***der.

Succession vai além do óbvio e mostra de forma dramática e sarcástica o quanto a desigualdade social é avassaladora. Enquanto alguns não tem onde descansar a cabeça na hora de dormir, outros tem dinheiro para jogar fora se quiser. E não existe nada que possamos fazer a curto prazo além de parar de dar palco para pessoas ricas assim. Elas não gostam de você, elas gostam dos seus likes, das suas visualizações, para elas você é só um número, um número essencial para que elas continuem no poder.

Confira o trailer:

Onde assistir: HBO Max.

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