Uma em Vinte e Quatro | Um Conto escrito enquanto eu ouvia No Buses

uma em vinte e quatro

O céu está azul escuro, choveu, tem luzes piscando no chão. Meu cigarro está apagado por causa do vento que bateu no meu rosto enquanto eu enxugava uma lágrima que escorria solitária. Pessoas passam por mim enquanto seus casacos pretos esbarram em quem estiver por perto. Não tem mais ninguém. Nem mesmo as vozes dentro da minha cabeça. Elas se foram. Desaparecer deve ter um gosto parecido com isso, com esse desgosto, com esse dia tão melancólico, com essa chuva fina após a tempestade, com esse chão molhado de lágrimas e chuva.

Faz meses que o seu relógio parou de ficar em cima da minha cômoda e eu ainda escuto os ponteiros se moverem, como uma assombração pelo meu apartamento. Lembra do filme A Ghost Story? Talvez você tenha se tornado aquele fantasma ou talvez eu tenha me tornado aquele fantasma, afinal de contas sou eu quem continua esperando.

Por isso, eu não consigo ficar muito tempo em casa, prefiro esperar andando pelas ruas da cidade, vendo as pessoas vivendo, olhando para os carros que voltam para suas respectivas garagens, ouvindo o silêncio gritante que existe dentro de dezenas de cabeças. As pessoas não param, não podem parar, não podem esperar, senão elas desmoronam, desmoronam feio como eu desmoronei.

Leia também: Você podia ter ficado comigo.

uma em vinte e quatro

Mas tem algo sobre aquela viagem que a gente fez para aquela cabana isolada do mundo que ainda me deixa feliz, as estrelas queimavam no céu enquanto a gente queimava no chão, perto da lareira. Essa é a única lembrança intocada que eu tenho de nós dois, acho que eu separei ela dentre tantas outras porque ela me faz feliz e não triste com todas as outras.

As coisas mudam, as pessoas passam, os carros voltam pra casa e eu não sei o que fazer. No Buses toca em looping na minha cabeça, apenas uma em vinte e quatro, No Buses toca em looping na minha cabeça, todo mundo é especial até deixar de ser.

O céu está azul escuro, choveu, tem luzes piscando no telão. Minhas lágrimas secaram, eu vi uma flor quebrando o concreto do chão. Está na hora de voltar para o meu apartamento e fingir que tudo ficará bem. Está na hora de aceitar que eu sou o fantasma que atravessaria todas as dobras do tempo por alguém.

Foto de Zeeshaan Shabbir
Foto de ClickerHappy

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